#30 – Autoajuda

Preciso confessar que desde sempre tenho o hábito de ler livros de autoajuda. Não acredito que eles irão mudar minha vida, e no momento não estou desesperada por nenhuma razão específica, leio por mera curiosidade.

Algo que me chama a atenção nestes livros é que o roteiro básico entre eles é em geral muito parecido. O autor a partir de uma experiência pessoal (muito ruim ou de grande sucesso, ou muito ruim seguida de um grande sucesso ou vice e versa) cria todo um sistema que funcionou para que ele colocasse a vida finalmente nos eixos e meio que vende este sistema para quem quiser comprar o livro (entre outros produtos).

O que acho curioso é que normalmente, o sistema criado pelos autores funciona como uma fórmula mágica para que os leitores transformem sua vida, se dá as dicas, mas não há muito sobre o processo, sobre as dificuldades, recaídas, tropeços e pedras no caminho. Meio que “todos leem sobre as pingas que bebo, mas nada conto sobre os tombos que levo”. Por que não acredito em mudanças verdadeiras e efetivas que não envolvam um processo.

Talvez isto esteja oculto nos livros, pois não seja vendável, afinal a fórmula mágica só venderá sendo mágica. Dos tijolinhos diários ninguém talvez queira mesmo saber. Acho válido ler autoajuda, acredito que quando a gente quer cuidar da gente, vale tudo e todos estes livros vão ter reflexões e sacadas muito boas para tirar da inércia e dar uma sacudida inicial.

Talvez estes livros vendam tantos títulos diferentes mais com roteiros muito parecidos por que sempre têm um público que muda, sempre tem alguém com no mínimo o desejo de mudar o que está incomodando na vida naquele determinado momento.

Mas não vale fazer disso a “eterna segunda-feira da dieta”, que se começa empolgado, investe-se e se desiste na primeira dificuldade. Se auto ajudar exige comprometimento e um processo longo e não tão fácil, não importa o incômodo que promoveu a mudança ou o objetivo a ser perseguido.

Pensando bem, acho estes livros um bom investimento, um bom passo inicial para a mudança. Mas é só o comecinho, como todo investimento é preciso seguir com o trabalho, afinal nem dinheiro na poupança quando parado rende alguma coisa significativa. É preciso seguir investindo e dar continuidade ao processo. De tijolinho em tijolinho, com o tempo as mudanças podem ser impressionantes.

#29 – Carnaval

É no carnaval que o ano começa de verdade. Com o estouro do último fogo de artifício do ano novo, a vida entra em um limbo chamado janeiro. O mês se arrasta nada funciona direito, poucas coisas acontecem. Mais da metade da população se refugia no litoral, em algum balneário no interior, ou mesmo na piscina do prédio para aguentar o calor. Em meados de fevereiro, com a iminência dos bloquinhos carnavalescos aos poucos, a cada fim de semana, a população vai retomando as ruas dos centros urbanos. As ruas vazias das grandes metrópoles brasileiras vão se enchendo de gente, música e glitter. A grande festa que cessou no réveillon recomeça com a duração de algumas semanas até o carnaval e só acaba com a quarta-feira de cinzas. Mas pode ainda se arrastar em alguns bloquinhos mais animados que seguem persistentes até alguns finais de semana depois.

A quarta feira de cinzas tem cheiro de  amores efêmeros, ressaca moral e corações partidos. Nas farmácias onde sobraram camisinhas, pode haver falta de pílula do dia seguinte. O mês que se segue é tempo de tensão, consultas ao médico e algumas menstruações podem atrasar, resultando nove meses depois em bebês gerados a de embriões embalados pela folia.

Após a quarta-feira de cinzas, é tempo de cuidar da saúde, voltar à academia e visitar o nutricionista para dar um jeito naquela semana de excessos que na verdade durou quase três meses e muitos quilos excedentes. Finalmente é hora de levar a vida a sério e tirar os projetos do papel. É o momento onde as resoluções de ano novo começam a ser levadas a cabo e daí o primeiro momento de colocar as prioridades na balança. Estudar o estado real da fatura do cartão de crédito, pagar a conta das férias, taxas e impostos referentes ao novo ano, para alguns, comprar material escolar.

É só na quinta-feira, após o carnaval que trabalho se torna mais agitado, os prazos começam a apertar, e a população proletária começa a contar nos dedos quantos dias ainda faltam para a sexta-feira santa, o próximo grande feriado.

As mudanças e resoluções que se arrastaram desde a virada do ano devem começar a tomar forma agora (ou nunca). O fato é que após a quarta de cinzas, o ano começa prá valer, pode-se dizer que o réveillon tornou-se uma festa supervalorizada em importância, por que o ano novo só começa mesmo quando o último folião volta para casa.

Do réveillon ao carnaval ficam as lembranças, os restos de glitter grudados por tudo e a realidade da vida para dar conta ao longo dos dez meses restantes do novo ano que acaba de começar.

#28 Oldies but goldies

 

Jung tem uma frase que diz o seguinte: ”Eu não sou o que me aconteceu; sou o que escolhi ser.”

Basicamente somos aquilo que fazemos de nós, por nossa livre escolha e responsabilidade. Obvio que a vida de cada um pode ser mais ou menos complicada, assim como os caminhos que podemos tomar em determinado momento.  Mas a mudança de rota no meio das trilhas ao longo da existência só pode ser tomada por decisão de cada um.  Chupinhando a famosa frase do Gandhi: “Temos de nos tornar a mudança que gostaríamos de ver no mundo”. E pode ser que essa mudança comece em coisas bem pequenas, e tudo bem, o importante é  tomar a atitude, sair do lugar comum.

 Mas é preciso ter a consciência de que só muda quem quer. Independentemente do tamanho e intensidade da mudança que se possa operacionalizar no momento.

Os tempos andam difíceis para todos.  Para alguns mais que outros, mas igualmente difíceis. Mas não é desculpa para ficar estagnado em lugares onde não se quer mais estar. Apesar das complicações da vida, não dá para empurrar a responsabilidade de mudar com a barriga e “sobrar de vítima das circunstâncias”, pior, “pagar” de vítima das circunstâncias.

Cada um sabe o que é melhor para si ou onde seu calo aperta. No fim das contas o pior algoz e o melhor amigo de cada um é a própria pessoa. Por que sair de uma situação ruim depende mesmo é da vontade de começar a se movimentar, mais do que qualquer circunstância mágica ou favorável. Só se mexe quem quer, para quem não quer sair do lugar, não há empurrãozinho funcione.

Ninguém pediu prá nascer, mas ninguém nasceu “só” prá perder. Então é uma boa hora de jogar fora a máscara de vítima fora e começar a se movimentar para onde se quer estar.

 

#27 A vida pode ser mais que uma mini-pizza.

A vida deveria ser como uma pizza, gostosa, recheada e vir ao menos com oito fatias. Pelo menos um brotinho que se possa dividir por quatro. Mas pode acontecer de acordarmos um dia e percebermos que a vida anda meio mini pizza. Pior,  daquelas pequenas de mercado com massa vagabunda, pouco molho de tomate e aquele queijinho bem mirrado.

A vida fica neste estado “mini pizza” quando esta resumida a uma coisa só. Seja a rotina limitada ao trabalho, naquele constante acordar, levantar, trabalhar, dormir com pequenas escapadas para ir, vir e comer, enfim, uma chatice! Ou nosso pequenino pedaço de massa pode estar resumido a um relacionamento, quando o outro se torna centro absoluto da nossa atenção e viver se restringe a atender necessidades que não são as nossas, seja o outro um amigo, namorado ou parente ou até mesmo o chefe (quem nunca?). São apenas dois exemplos, mas não é tão incomum nos percebermos “em estado de mini pizza”, acontece às vezes.

Viver assim é uma situação um tanto desestabilizada e  que para se retorne a algum equilíbrio é preciso tentar ampliar os horizontes da nossa mini-pizza. Primeiramente aumentando o número de fatias, acrescentando novas atividades, amigos, coisas que gostamos de fazer e que tornem o nosso viver  mais interessante e cheio de pedacinhos que nos completem.

Bom mesmo é quando nos damos conta que o conjunto de fatias ficou recheado e nossa massa se tornou  crocante. Não importa se temos, quatro, oito ou dezesseis fatias desde que cada uma delas tenha sua importância na sua função de nos tornar nossa vida-pizza plena de recheio e gostosura.

O primeiro grande passo  é nos colocarmos dispostos a deixar nossa massa se expandir procurando entre as fatias e sabores  os que melhor nos completam. E para descobrimos qual o tamanho ideal, numero de fatias e sabor do recheio que mais nos apetece, o jeito mais simples é experimentar entre as várias combinações disponíveis e por que não arriscando algumas outras mais inusitadas. Não há limites para as pizzas ou para a vida. Portanto, não tem desculpa para continuar a viver uma vida de mini-pizza, só é preciso alguma coragem e disposição para experimentar e tempo para ver a massa crescer.

#26 Útil para quem?

Olha que coisa louca: Você já parou para pensar que a sua disponibilidade incontrolável para ajudar, ou mudar a vida do outro pode ser uma necessidade sua (e apenas sua)?

A vida do outro não é a sua vida, então o que pode parecer quebrado e torto aos seus olhos provavelmente pode estar funcionando perfeitamente bem para o outro, sem demandar a menor interferência dos seus superpoderes do altruísmo desgovernado.

O outro pode querer ajuda para algumas coisas às vezes, mas existe um limite onde se pode ferir a autonomia das escolhas e decisões que são apenas do outro e onde a sua disponibilidade já não tem mais lugar.

Aliás, vamos refletir um pouco mais sobre este desejo louco por ser útil aos outros, ou a alguém específico. Será que é muito complicado só viver de boas, deixando-se gostar apenas por ser quem você é no lugar de viver escravizado pela vontade de ser útil ou adequado, ou o mais bacana para os outros sempre?

#25 Quem gosta de migalha é pomba.

A autoestima tem tamanho? Provavelmente ela varia ao longo dos dias, das horas. Talvez uma boa medida seja a quantidade de migalhas que se anda aceitando por carência, tédio ou falta do que fazer mesmo. Mas é o seguinte – quem gosta mesmo de migalha é pomba que aceita qualquer grãozinho de milho murcho só para sentir a barriga cheia.

Fome de amor, carinho e aceitação dói, mas só ter a barriguinha cheia com migalhas é pouco. Afinal bocadinhos de qualquer coisa não fazem de ninguém pleno.  Entendo que de grão em grão a galinha enche o papo. Mas pessoas não são galinhas e sentir na alma uma completude de sentimentos é mais complicado que ter o papo cheio de quirera velha.

Cada um sabe de si e aceita o que dá conta. Pode parecer um tanto orgulhoso recusar algumas migalhas que a vida ou pessoas nos colocam. Há situações onde se mostram quase irrecusáveis, seja pelo tamanho da nossa fome ou pelas boas intenções aparentes que vem por trás destas migalhas. Mas é preciso engolir seco, esquecer a fome e dizer não. Por que aceitar o inaceitável rouba pedacinhos da autoestima que custa tanto para ser construída e consolidada.

É preciso reaprender que raspas e restos não interessam e que as coisas boas para nós não vem de grão em grão, mas sim de banquete. Num banquete pode-se escolher entre várias opções, pode-se recusar também, sem que o que dispensamos nos faça falta. O banquete nos mostra várias oportunidades e caminhos e nos é oferecido para que nos transborde diferente das migalhas que mal nos saciam um pouquinho da fome.

Quando se consolida a autoestima é possível entender que o banquete quem em primeiro lugar nos oferece somos nós e cheios de amor próprio nos permitimos sem medo da fome recusar as migalhas e restos que não nos fazem plenos, e que muitas vezes vão mesmo é nos fazer muito mal.

É preciso estar atento às migalhas que por desatenção e carência estamos nos permitindo engolir. Milho velho azeda e dá uma dor de barriga danada. É preciso  erguer a cabeça e lembrar que as migalhas só interessam às pombas. O tamanho da autoestima cada um constrói e preenche com o que tem dentro de si. Para que ela cresça não é possível sobreviver aceitando migalhinhas duvidosas que não saciam nem as necessidades mais básicas da alma.

#24 – Como vai seu Bicho Papão?

Todos têm um Bicho Papão para chamar de seu. Alguns  são bem feios, mas não machucam tanto, outros mais bonitinhos e cruéis, mas olhar para eles sempre provoca algo de incômodo e dor.

É possível passar uma vida ignorando o Bicho Papão particular, mas ele vive em simbiose, grudado em alguma parte nossa e uma hora ou outra aparece. Ainda que seja apenas de relance ele se fará notar em alguma ocasião.

Encarar o Bicho Papão pode tornar-se inevitável em algumas ocasiões da vida. E  nota-se que ele está ali e veio para ficar, porque ele é parte do que sempre fomos. Isto nos provoca incômodo, gera uma antipatia e aquele desejo de que o bicho desapareça. Mas ele não vai embora, quanto mais se tenta fazê-lo sumir, com maior força ele gruda em nós e muitas vezes ele cresce e se torna mais feio.

Uma opção é fingir que o Bicho Papão nunca existiu  e relegá-lo ao esquecimento, criando distrações para fingir que ele não está ali. Mas ele é resistente e fica de prontidão encarando com seus olhos grandes, esbugalhados e assustadores em todas as oportunidades.

Outra possibilidade é enterrá-lo bem fundo, tentando sufocar sua presença com a poeira do esquecimento. No entanto, hora ou outra se fará necessária uma faxina na vida, e sob tanto pó o Bicho Papão estará aguardando, forte e cevado, por que o tempo e o descuido serviram como seus alimentos mais nutritivos. Assim ele despertará cheio de força e  vencerá por nocaute ainda no primeiro round.

Para lidar com o Bicho Papão é preciso um fortalecimento voluntário que só se faz possível encarando-o olho no olho. E isto exige entrega e coragem. É fundamental aceitar que o bicho existe e é parte do que somos. O próximo passo é afrontá-lo  em todas as oportunidades. Mais que isso, é preciso promover os embates com o bicho, seja na terapia ou autoanalise ou numa atividade física. É fundamental escolher a melhor maneira de lidar com o bicho e muitas vezes poderá ser mais de uma opção. É necessário colocar-se disposto a fitar o Bicho Papão até fundo dos olhos. Que aconteça aos poucos, mas com frequência, por que nosso bicho está ali fazendo parte de cada um de nós.

Um dos melhores jeitos para se lidar com o Bicho Papão é percebê-lo, aceita-lo e encará-lo com o máximo de bravura possível. Aos poucos ir criando uma intimidade,  até uma certa camaradagem. No início será puro desconforto, mas com o tempo o bicho se tornará quase familiar.

O perigo de enterrar e ignorar o Bicho Papão é que ele é guloso, come por dentro, nos consome o melhor que há em nós. E o há um grande risco de que quando percebermos o buraco ele tenha se tornado muito grande. Por mais feio e amedrontador que seja nosso Bicho Papão, é estratégico aprender a encará-lo sob o ângulo certo, assim aos poucos ele não se mostrará assim tão horripilante.