#16 – 19/01/2017  Viver é se jogar e as vezes se quebrar.

 

A vida é um salto olímpico só que às vezes pulamos de cabeça em piscina rasa. E nos jogamos para nos quebrar.Pode ser aquele projeto de trabalho que nos aplicamos  com afinco e não dá em nada além de um monte de problemas e muita dor de cabeça. Ou aquele novo hobbie incrível e muitas vezes caríssimo em que gastamos nosso tempo e energia, só para perceber rapidinho que não era nada daquilo que imaginávamos. Ou então uma viagem dos sonhos que antes mesmo de sair do avião, por uma série de coisas já se tornou um pesadelo.

Há também aquelas histórias de amor que de tão intensas prometiam tudo, mas não dão em nada. Ou aquelas amizades equivocada que pareciam ótimas, mas com o tempo ao invés de acrescentar algo na vida, se mostraram pura perda de tempo.

Tantas vezes nos atiramos com vontade e insistimos muito tempo e energia em situações que não funcionavam para nós e que na verdade só nos machucavam muito. Vivemos um tempo acostumados na dor crônica da cabeça quebrada ou do coração partido.

Outras vezes o mergulho é rápido e intenso, nos despedaçamos de uma vez e então temos que aprender a viver com a dor constante de tentar colar os pedacinhos que se espatifaram de nós por muito tempo.

Quantas vezes a dor foi tão intensa que nos prometemos que por mais quente que esteja o verão, nunca mais nos aproximaremos da piscina. E com medo de doer novamente, vivemos anestesiados, sem nos permitir arriscar nada para evitar a dor a qualquer custo, e nos pegamos vivendo na tristeza crônica que é não sentir mais coisa nenhuma.

E a vida está aí, cheinha das piscinas para nos atirarmos. Acontece que só se descobre se ela é rasa ou funda ou média quando nos jogamos. Não dá para passar a vida toda na beira, vivendo na segurança dos meios termos. Viver ou é ou não é e muita vezes nessa dualidade da vida a gente se quebra. A cabeça, o coração, a cara e as vezes tudo de uma vez.

Já dizia Guimarães Rosa que viver é muito perigoso. E talvez aprender a se jogar com excelência seja qual for a “fundura” da piscina seja parte da vida. A gente se quebra um tanto de vezes e é parte do jogo este constante reemendar-se, juntar nossos cacos que se espatifaram para colar novamente. E com isso nos renovamos e nos tornamos mais fortes.

 

#15 – 18/01/2017 Entre a indigestão e a fome no self service da vida.

 

A vida muitas vezes se apresenta para nós como um grande banquete de possibilidades à serem escolhidas. E entre nós e as escolhas oferecidas está nossa fome por alguma coisa.

Quantas vezes, diante da grande mesa de buffet de self service que é a vida, nos vemos tão esfomeados que nos perdemos e enchemos demasiadamente o prato e ao final da refeição, não damos conta de comer tudo o que escolhemos e precisamos até deixar de lado a sobremesa, por que nos fartamos até a indigestão. Nos perdemos entre tanta comida e indigestos, nos arrependemos de termos comido até o que não nos apetecia tanto assim.

Ou então chegamos no buffet da vida meio sem apetite, deixando nosso prato quase vazio, escolhendo apenas umas poucas folhas de alface meio xoxas, uma azeitona e um pedacinho de palmito. Ignoramos a sobremesa e logo após a refeição que comemos sem muita vontade, nos vemos esfomeados, mas já é tarde e o restaurante fechou.

Além disso, há situações onde entre tantas opções fica difícil escolher o que colocar no prato. Às vezes entre tanta escolha é complicado saber o que realmente se quer comer.

Entre a indigestão e a inapetência é preciso aprender quais são as melhores escolhas para o gosto e tamanho do nosso apetite. Quais as escolhas essenciais para o nosso prato do dia? Afinal o essencial depende muito do nosso gosto e gosto não se discute.

Para alguns é essencial comer filé mignon todos os dias. Há outros que ficam contentes e realizados comendo paleta e isso não significa que uma escolha seja melhor ou mais certa que a outra. Escolha é questão de preferência, gosto. E cada um é livre para escolher o que é melhor para si.

Se gosto de coxão mole, não sou mais nem menos que o amigo para quem o bom e justo é farta-se de picanha todos os dias, afinal gosto não se discute.

Há lugar para todos no banquete da vida. Desde os apreciadores de carnes nobres, aos essencialmente vegetarianos. O banquete está colocado e cabe a cada um escolher o que melhor lhe apetece no momento. Eu há tempos deixei o filé de lado e hoje me farto com um belo prato de brócolis fresco. Atualmente na minha vida, não faz o menor sentido escolher o filé.

Na fila do self service é preciso ter algo de autoconhecimento para saber optar pelo que nos caberá melhor no prato. Não importa se a escolha que o colega da frente fez parece mais certa e apetitosa, pois pode ser algo que não se encaixa bem dentro da combinação do nosso prato e certamente nos dará uma baita indigestão.

Diante das escolhas do buffet da vida, em meio à variedade, é preciso aprender o que ao nosso prato é essencial, o que em determinado momento nos apetece e nos é indispensável para ficarmos satisfeitos.

Aprender a escolher o essencial é aprender a escolher com simplicidade. Não encher vorazmente o prato e fartar-se até passar mal e não se colocar com inapetência diante do buffet  de escolhas da vida e logo estar esfomeado batendo na porta do restaurante que já fechou.

É preciso saber quais, para nós são as melhores escolhas entre o que mais nos apetece diante das tantas possibilidades e então nos servir das quantidades mais ou menos exatas para o tamanho da nossa fome. Assim poderemos passar pelo banquete que é a vida plenos e bem alimentados, aproveitando a salada, o prato principal e sempre com espaço para desfrutar a sobremesa.

#14 – 16/01/2017 Perdido na marginal com waze bugado

Quando entre os descaminhos da vida a gente se reencontra do meio da confusão, descobre-se o quanto é bom ser feliz consigo. Mas o reencontra-se tem também seu lado sombra, que é aquele medinho que dá de se perder de novo.

É uma luta diária para entender o que é barulho e o que é a calma. O quanto do que se faz é fruto dos desejos e ambições próprias ou se é um deixar-se levar por uma história ou caminho que não é o escolhido. Ou se o rumo tomado não pode ser uma trilha errada que invariavelmente nos afastará de quem somos. Cada plano feito e cada mudança de rota pede por reflexão.

É possível que o “waze da vida” nos coloque em situações nas quais seja preciso recalcular a rota e pior, com um plano de dados bem ruim, sem 4G, no máximo com um 3Gzinho bem sem vergonha. É parte do jogo, por que viver é uma novela sem roteiro definido e às vezes o roteirista das nossas histórias esqueceu-se de tomar o remedinho e nos coloca em episódios onde nos vemos com o waze bugado no meio da Marginal Tietê sem saber oncotô e proncovô e pior, quemcosô, ou qual saída pegar.

O importante é segurar na cordinha da reflexão diária, para tentar não perder muito o rumo. Meditar também ajuda a diminuir o barulho e dar aquela reorganizada por dentro. E não esquecer de que o lado sombra está ali, pronto para nos colocar em dúvida sobre os caminhos tomados. E que bom, por que se todos os caminhos fossem certeza, a aventura de viver acabaria e é certo que morreríamos todos afogados pelo tédio. Perder-se é parte de crescer, e torna o reencontra-se tão gostoso e especial. Saber o que se quer dos caminhos da vida pode ser um pouco nebuloso. Mas quando nos perdemos e temos a chance de nos reencontrar um pouquinho que seja e vamos aprendendo o que não queremos mais para as nossas vidas. E saber o que não queremos já pode ser meio caminho para pegarmos a trilha de algo que queremos, mesmo com a novela escrita por um roteirista maluco e sem desfechos definidos.

#13 – 14/01/2017 Ostra feliz não faz pérola.

Rubem Alves tem um conto que se chama: “Ostra feliz não faz pérola”. A história fala sobre uma colônia de ostras felizes e cantantes e entre elas uma ostra sofredora e dissonante da cantoria que reinava no fundo do mar. Ela sofria por que dentro dela havia um grão de areia, e isto aparentemente lhe doía demais. Durante seu canto triste, a ostra sofredora percebeu que para diminuir sua agonia, o jeito era envolver o grão de areia com uma secreção brilhante que brotava de dentro dela. O final das ostras, as felizes e a triste, foi a panela da mulher do pescador. Mas as ostras felizes foram degustadas despercebidamente enquanto a sofredora premiou seu pescador com uma pérola.

Quantas vezes ao longo da vida nos encontramos no lugar da pobre ostra sofredora? Tendo apenas para cantar melodias tristes, enquanto as outras pessoas bradam cantos de plena alegria? Acontece às vezes por que o sofrimento é parte da vida. Mas abandonar-se à cantoria triste não faz nada demais por nós, a não ser nos manter dissonantes e isolados.

Encontrar algo dentro de nós que nos ajude a diminuir a dor e seguir em frente é o equivalente à triste ostra secretando seu nácar para, de sofrimento em sofrimento, fabricar a pérola.  No mesmo conto, Rubem Alves fala sobre a relação dos gregos com o sofrimento e a tragédia. De acordo com a história, para os gregos tragédia era coisa séria e a mágica era transformá-la em beleza, em analogia à ostra e sua pérola.

“A beleza não transforma a tragédia, mas a torna suportável.” Além da cantoria triste, em meio aos episódios trágicos da vida. Talvez seja útil, quando dentro da confusão, buscar um pouco de beleza. E entre cantar os chororôs e tentar enxergar a belezura mágica das coisas da vida, talvez seja possível descobrir como fabricar nossa própria madrepérola e começar a envolver o episódio triste e assim deixar a vida novamente recheada só por bonitezas.

Mas para os momentos dissonantes, onde o cantar da vida soa pura agonia, é bom lembrar que tudo é passageiro, que apesar de tudo ainda há beleza no mundo e principalmente erguer a cabeça, afinal, já bem disse Rubem Alves: Ostra feliz não faz pérola.

#12 – 12/01/2017 Dia de encarar a poeira debaixo do tapete.

Faz parte de estar bem e feliz, manter algumas coisas na vida organizadas e bem resolvidas. Mas eu tenho e todos temos aquela pilha de “coisinhas” que incomodam, seja diariamente, seja quando “tropeçamos” nelas pela vida. Mas como são só “coisinhas”, deixamos passar e relegamos às tarefas que talvez, quem sabe um dia tomaremos uma decisão à respeito.

Chega um momento na vida que a pilha das coisinhas indesejáveis se torna grande e incômoda demais, no entanto continuamos a guardá-las embaixo do tapete. Um dia nos damos conta que criamos uma grande montanha de poeira suja no meio da nossa linda sala de milhares de reais comprada em 10 vezes no cartão na TokStok.

Quando levantamos o tapete, percebemos o tamanho da bagunça nas nossas vidas causada pela pilha das coisinhas não resolvidas.  Mas levantar o tapete é só o primeiro passo. No final do ano passado comecei a encarar a minha pilha. Percebi que algumas coisinhas eram muito simples de serem resolvidas, as outras viraram uma coisona grudenta, que demandaria alguns pacotes de bombril e muito sapólio para desgrudar.O segundo passo foi encarar o trabalho que seria necessário para começar a limpeza.

Neste processo me deparei com um post no blog Vida Organizada, da Thais Godinho, que tinha o título: “O que eu quero deixar para trás em 2016”. No post vinha um questionário com coisas profissionais e pessoais que estariam incomodando e que deveriam ser respondidas à fim de começar a resolver estas coisas em 2016 para entrar o novo ano com algumas destas questões mais ou menos encaminhadas. Achei um excelente incentivo para pelo menos “dar aquela primeira olhada embaixo do tapete”e recomendo muito a leitura do post e tentar responder o questionário.  Hoje, último dia de trabalho antes de entrar de férias, achei a folha onde anotei minhas perguntas e respostas.

Nesse tempo notei que algumas respostas mudaram, algumas questões estão praticamente resolvidas e respostas novas surgiram para algumas perguntas. Fiquei feliz em perceber que estou lidando com a minha “montanha de poeira” e fiquei motivada a continuar sempre. Peguei um caderninho e refiz o questionário. Coloquei como prática, olhar novamente e voltar a responder, de tempos em tempos, assim me manterei na tarefa de resolver aos poucos a minha montanha empoeirada. É muito legal sentir que saí de uma certa “estagnação”em que vivia com algumas coisas e dá um sentimento bom de estar resolvendo o que estava escondido sob o tapete e que de um jeito ou de outro incomodava.

E você? Tem uma pilha de coisinhas? Ela já é do amanho de um Everest de poeira guardada debaixo do tapete? Não tem problema, pegue um balde, um pano e crie coragem e encare o que está ali embaixo!

 

#11 – 11/01/2017 Rob taxista e o Rei.

Dia desses, voltando de viagem, peguei um táxi para casa. O taxista me pergunta se eu me importava de escutar Roberto Carlos. Claro que não, respondi. Seu nome era Sr Roberval, ou Rob taxista, como ele me pediu que o identificasse nos contatos do meu celular.

Rob taxista me pediu para colocar uns sons do Rei por que estava fazendo uma seleção musical para a festa que preparava com carinho para comemorar seus 39 anos de casado. Contou tantos causos doces da suas história com a sua amada “véinha”, que como ele mesmo disse, é tudo para ele.

Contou que dia desses insistiu em levá-la para Caraguá, só os dois, para curtirem um fim de semana juntos, tomar uma cervejinha e para que ela pudesse comer camarão. Insistiu pois num outro feriado foram à praia, mas a esposa de Rob estava com uma alergia danada e não podia nem comer nem beber nada, e como ele disse: “se ela não pode, eu também não faço” e na ocasião, contentaram-se em ficar só no refrigerante.

Outra história foi que, como parte da chefia do clube que são sócios, para agradar à sua véinha Rob inventou de chamar ele mesmo, o Rei Roberto Carlos para fazer um show. Entre um sucesso e outro, o Rei ofereceu uma rosa à esposa de Roberval, que precisou deixar o show de SAMU, por que deu taquicardia de tanta emoção. Roberval ficou obviamente muito bravo com o Rei, afinal de contas, como ele apronta uma dessas com a véinha dele? Um absurdo.

Rob taxista, 39 anos de casado, três filhos naturais e mais 8 adotados pelo casal e uma infinidade de causos e histórias bonitas de encher o coração. Poderia ser um personagem inventado, não fosse Roberval uma pessoa de verdade que neste comecinho de ano novo  recebi o presente de conhecer. Fiz questão de pegar seu telefone, para mais corridas e mais histórias. Na despedida o Rob beijou a minha mão.

Comecei este novo ano desejando mais amor, e acho que quando sintonizamos a frequência certa, o amor vem das maneiras mais inesperadas. Por um ano e um mundo com mais pessoas tão cheias de amor para dar e contar como o Roberval. A música deste post é sugestão dele. E precisamos respeitar a opinião de que sabe e vive bem o amor. Desde que conheci o Rob escuto o Rei com novos ouvidos e coração aberto, afinal, quem sabe sabe!

#10 – 10/01/2017 Somos um infinito de possibilidades.

Você é quem você é. Hoje vi um vídeo da Monja Cohen, sobre como ter ou manter a auto estima. Ela finaliza o vídeo dizendo a seguinte frase: “aprecie a sua vida”.

Tantas vezes problematizamos demasiadamente as coisas e temos a tendência de nos desligarmos do mais simples. Nenhum remédio maior para o amor próprio que a gratidão pelo que somos. Afinal as más experiências vem para nos tornar fortes e as boas para colorir e encher de leveza a vida. Mas de nada valem às experiências se não entramos no campo da gratidão.

Primeiramente é preciso aceitar quem somos, para isso é importante pararmos de nos comparar com o outro. Cada indivíduo é um indivíduo e por si só é campo fértil para infinitas possibilidades. Comparar-se só abre espaço para a angústia de não aceitar o que se é, em busca de um ideal que muitas vezes nem é o que de fato se almeja.

Saramago, no conto da ilha desconhecida, diz que é preciso sair da ilha para ver a ilha. Quem sabe seja preciso aprender como sair um pouco de nós, ou colocar a vida em perspectiva para atingir este campo da gratidão. Tentar observar um pouco do que somos, nos colocando para fora de nós mesmos. Uma alternativa boa é através do serviço desinteressado.

Utilizando o nosso melhor talento sem buscar nada em troca. Há inúmeros programas de trabalho voluntário onde podemos aplicar nossos talentos adormecidos ou não, para ajudar e nos conectar à outras pessoas. Saímos de nós por que nos colocamos à disposição do outro, que por um tempo limitado, passa a estar na condição de mais importante, e este é o fundamento em que se baseia o serviço (de servir a alguém, desinteressadamente).

Ao servir ao outro, nos abrimos a outras histórias, diferentes das nossas. Exercitamos a empatia e a compaixão  o que além de nos fazer um bem imenso, nos ajuda a tirar o foco de nós mesmos. Naturalmente nos sentiremos gratos à oportunidade e também pela vida que temos que passamos a observar sob um novo olhar.

Além disso, todos temos algo de bom para dar, e o serviço nos coloca em contato com este “algo de bom”. Muitas vezes estamos afastados desta tarefa que executamos com excelência no transcorrer de nossa vida cotidiana de trabalho e correria. A vida e o trabalho tendem a distanciar-nos daquilo que temos como vocação, mas ela está lá como uma pequena chama que alimenta uma parte do nosso espírito (alma, ser superior…). O servir desinteressado é uma chance de desenvolvermos isto e os benefícios para nós são impagáveis. Que seja uma hora por semana, permita-se esta viagem em busca do espaço da gratidão por ser quem você é! Aprenda a apreciar a sua vida. Afine-se com quem lá no fundo você sempre foi.